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1 de dezembro de 2017

O poço de cada uma

 Esbarrei com a escritora italiana Natalia Ginzburg, no facebook, numa postagem da psicanalista Leda Guimarães:

" as mulheres têm o mau hábito de cair em um poço de vez em quando, esse é o seu verdadeiro problema. As mulheres têm muitas vezes vergonha disso e fingem que não têm problemas, que são fortes e livres. Duas mulheres se entendem muito bem quando falam sobre o poço escuro. Conheci muitas mulheres, mulheres calmas e não calmas, mas também as calmas caem no poço: todas caem no poço de vez em quando. As mulheres começam na adolescência a sofrer e a chorar em segredo no seu quarto, choram por causa de seu nariz ou sua boca ou de alguma parte do seu corpo que não gostam, ou choram porque acreditam que ninguém as quererá nunca, ou porque Têm medo de serem estúpidas: estas são as razões que se dão a si mesmas, mas na verdade choram porque caíram no poço e sabem que ao longo da sua vida cairão nele muitas vezes, o que lhes fará difícil levar adiante Uma coisa séria. As mulheres têm séculos de escravidão nas suas costas e o que têm de fazer é defender-se com unhas e dentes do seu mórbido hábito de cair no poço. A primeira que tem de aprender a agir assim sou eu, porque, caso contrário, nunca poderei fazer nada sério e o mundo não progredirá enquanto estiver povoado por uma legião de seres que não se sentem livres."

Helmut Newton

Dica ViaFreud : Não pise no meu vazio, da Ana Suy

Na semana que vem acontece o lançamento do segundo livro da psicanalista e escritora (e minha colega de doutorado!) Ana Suy Sesarino Kuss. Intitulado Não pise no meu vazio, o livro de crônicas poéticas vai ser lançado em Curitiba e a gente fica torcendo pra ter um evento por aqui pelo Rio...
O meu já foi encomendado e depois eu conto para vocês!






Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

18 de outubro de 2017

Dica de leitura

Texto de Marie-Hélène Brousse sobre identidade e gênero, publicado no blog da XXI Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise - MG.



Por Marie-Hélène Brousse

O século XX viu crescer um movimento de reivindicação que tinha suas raízes no que chamarei a revolução universalista: o feminismo. O século XXI vê o desdobramento de um novo movimento de reivindicação que mobiliza outro significante, um significante novo: o gênero. O termo não é novo. Pertence à língua desde a antiguidade e designa a classificação de conjuntos relacionados por algumas similitudes. Quase universalmente presente na gramática das línguas – masculino, feminino ou neutro – associado ao nome, inscreve a marca da diferença sexuada no funcionamento das línguas chamadas naturais. Se o termo, polissêmico, é antigo, o uso que se faz atualmente do mesmo e os estudos que o promovem não os são.

Conseguiu impor-se e reorganizar o conjunto dos discursos. Este potencial obriga, com efeito, levá-lo em conta de maneiras muito diferentes e inclusive antagonistas. Está ligado a outros dois significantes de crescente importância no discurso: identidade e minoria.

Identidade e gênero: algumas referências

Sou psicanalista e, portanto, abordarei o gênero e a identidade a partir desta disciplina. Algumas referências são necessárias. A primeira concerne à linguagem. Nossa matéria, essa com a qual operamos, é a linguagem, - e Lacan a põe em evidência de maneira retroativa em sua leitura de Freud - a língua falada de todos os dias, a linguagem corrente em sua materialidade, o som. Porém, essa linguagem está moldada por um discurso que Lacan formalizou, o discurso do mestre. O inconsciente, tal como se manifesta na análise, é seu oposto. A psicanálise não é uma ciência das profundezas da psique, é uma disciplina do que retorna. A cadeia da palavra do analisante, tomada na estrutura do discurso do mestre, segundo uma topologia de banda de Moebius, dá a volta. Como as línguas naturais, os discursos se transformam e os significantes-mestres que orientam os efeitos de sentido, de sentido comum, surgem e declinam. O gênero substituiu o sexo como significante mestre (Sexe/Gender). Esta substituição tem, evidentemente, implicações e consequências.

Os discursos de gênero têm sido introduzidos majoritariamente pela língua inglesa e têm conhecido primeiro um êxito crescente nos USA. Os assuntos da vida sexual sempre tiveram nos USA, assim como no Reino Unido, uma incidência política mais forte que na França. Sem dúvida as raízes puritanas e protestantes presentes no discurso em língua inglesa têm efeitos diferentes dos engendrados pelo catolicismo. A dificuldade para traduzir nesta língua, de maneira adequada, o termo lacaniano de Gozo, é prova disso. O termo gênero evita o equívoco sempre presente no sexo que, masculino ou feminino, assegura uma função classificatória e, indissociável de Eros, tem sempre um valor erótico na língua. Além disso, o termo gênero sai do binário construído com a reprodução para introduzir um terceiro termo, o neutro. Poderia sustentar cada uma dessas afirmações em elementos da psicopatologia da vida cotidiana: utilização de banheiros públicos, reivindicação de neutralidade sexual escutada há três anos ao vivo em um evento paralelo sobre The Empowerment of Women na ONU, na entrevista com o professor Jack Habelstram do departamento da American Studies and Ethnicity, Gender Studies and Comparative Literature de la Universidade do Sul da Califórnia, especialista em estudos Queer. O enunciado da disciplina, sem dúvida bastante complicado, que acabo de citar por inteiro, mostra que o significante “gênero” está em correlação com o de “etnia” e o de “minorias” e o “Queer”. Esta entrevista está publicada no nº 2 de The Lacanian Review, “Sex all over the palce”, título dado por outra universitária estadunidense, Joan Copjec, muito conhecida por ter introduzido e publicado Lacan nos USA – particularmente Televisão – na revista que ela dirigia então, October. Se o gênero já não determina o sexo na suposta diferença, reduzida à anatomia, entre homem e mulher, surgem então duas perguntas:

O gênero substitui a identidade sexual? Onde se muda a função erótica que os “sexos masculino ou feminino” situavam, ou pretendiam situar, a serviço dos sistemas de parentesco, sob o controle da anatomia? Resposta: ”all over the place”.

Uma modificação histórica do discurso

A psicanalista que sou aborda os debates e enfrentamentos atuais sobre gênero e identidade de uma maneira não polêmica. A psicanálise sabe do poder dos significantes mestres sobre os parlêtres, porém sabe também que este poder se baseia em dois elementos: o poder dos semblantes em geral e as condições para que um significante, sempre vinculado a uma época, possa, mais além de seu surgimento forçosamente minoritário, impor-se majoritariamente como dominante. A partir desse lugar tem, então, função de verdade. Um estudo crítico da identidade e do gênero é a ocasião para a psicanálise, não somente para continuar elaborando a noção do discurso do mestre, mas também para estudar – em tempo real – sua modificação histórica em seu percurso pelas ocorrências da palavra dos analisantes. É um dos modos de desdobrar a psicanálise de orientação lacaniana em suas últimas inovações. Assinalo assim, o estudo que Jacques-Alain Miller fez do ultimíssimo Lacan extraindo uma modificação do discurso e da prática analítica sobrevinda neste último período de seu ensino: o acréscimo ao inconsciente freudiano, obtido por decifrado e transferência, de outro inconsciente nomeado como inconsciente real. É mais acertado dizer que ao inconsciente transferencial se acrescenta o inconsciente real, segundo a topologia posta em evidência do laço entre sexualidade fálica e sexualidade não-toda fálica. O inconsciente real não está fora do valor fálico, porém não está completamente regido pela metáfora. O sujeito do inconsciente não é o único objeto em jogo na análise. O corpo falante também joga a partida.
para ler o texto completo, clique aqui.


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.


7 de outubro de 2017

Perdidos


Steve Cutts é um ilustrador e animador inglês, conhecido por vídeos com tom crítico, provocador e polêmico, tratando especialmente de questões ligadas aos dispositivos de controle da cultura atual, às consequências do avanço das tecnologias, à preservação do meio ambiente e dos direitos dos animais.

A animação "Are you lost in the world like me?" é um soco no estômago e dispensa qualquer apresentação...

‘ARE YOU LOST IN THE WORLD LIKE ME?’



Vale a pena conhecer mais do trabalho do artista no blog: https://stevecutts.wordpress.com/ e no site: http://www.stevecutts.com/





Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

6 de outubro de 2017

Diálogos do Lacaneando: Amor, Desejo e Gozo

Pela terceira vez participei do Diálogos do Lacaneando, (veja mais aqui e aqui), evento organizado pela Patrizia Corsertto, que rola na Livraria da Villa, em Curitiba e em São Paulo.
Dessa vez, dividi o espaço com Ana Laura Prates Pacheco e Rita Bícego Vogelaar para discutir o tema "Amor, desejo e gozo e a experiência não podia ter sido mais incrível!









Os eventos do Diálogos desse ano marcam também o lançamento do livro Amor, desejo e Gozo. São mais de 40 artigos de psicanalistas de São Paulo, Curitiba e Rio, que participaram dos eventos e agora estão reunidos numa publicação da Calligraphie Editora. Entre os autores estão Christian Dunker, Ana Suy Sesarino Kuss, Antonio Quinet, Carla Regina Françoia, Maria Homem, Ana Laura Prates Pacheco, Paulo Roberto Ceccarelli, Tatiana Assadi e eu!!!!
Dá um orgulho enorme ter um artigo meu também no meio de tanta gente boa... 


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

20 de setembro de 2017

Homossexualidade não é doença!

Anos de luta retrocedem com uma canetada de uma pessoa que, claramente, não entende nada do assunto...
1935 - Freud responde uma carta de uma mãe preocupada com a homossexualidade do filho:
"(...) não existem motivos para se envergonhar dela (da homossexualidade) já que isso não supõe vício nem degradação alguma.
Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual (...)"
1973 - Associação Americana de Psiquiatria retira a homossexualidade da lista de transtornos mentais.
1975 - Associação Americana de Psicologia adota a mesma posição, orientando os profissionais a não mais patologizarem a homossexualidade de seus pacientes.
1985 - Conselho Federal de Psicologia brasileiro, antes mesmo da OMS, adotou o entendimento de que homossexualidade não é doença.
1990 - Organização Mundial de Saúde (OMS) retira homossexualidade da lista de doenças.
2017 - um juiz do Distrito Federal contraria a posição oficial​ do Conselho Federal de Psicologia e da Organização Mundial de Saúde autorizando o tratamento de homossexuais como doentes por meio da "terapia de reversão sexual", ignorando anos de pesquisas científicas que afirmam que tal prática não tem resultados.




Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

17 de setembro de 2017

Semana de Psicologia da Estácio de Sá Niterói

Na semana passada participei da Semana de Psicologia da Estácio de Sá Niterói, com a palestra "Quando o espelho se torna um problema: uma discussão sobra a imagem do corpo, os transtornos alimentares e os excessos de intervenções estéticas", contando um pouco dos achados da minhas pesquisa de doutorado sobre este tema.

O evento, que aconteceu em comemoração do dia do psicólogo, estava com auditório lotado! A participação dos alunos super interessados e a discussão depois da palestra  - que só acabou porque não tínhamos mais tempo - mostrou o quanto a nova geração de futuros psicólogos está antenada com a prática clínica e com os temas mais atuais! 








Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.